Ética – A Primeira e Única Linha de Defesa

shutterstock_180191942_redimensionadaO mundo passa por um momento de transformação inimaginável em que todos os conceitos estão sendo desafiados e a retidão das condutas são confrontadas com as demandas de alta performance, realização, conectividade, inclusão e transparência que o mundo moderno nos apresenta a todo instante.

Por maior que seja o desafio, somente por meio de uma conduta ética seremos capazes de abraçar todos esses desafios e traduzi-los em resultados tangíveis e sustentáveis. As sociedades passam a adotar tolerância zero para condutas pessoais e profissionais desconectadas com esta realidade. Relacionamentos de toda natureza serão essencialmente pautados pela transparência, honestidade e justiça.

Os indivíduos possuem um papel singular no enfrentamento destes desafios e constituirão a primeira e fortíssima linha de defesa aos malfeitos e os principais vetores dessa transformação. Isso passa pelas sociedades organizadas e também pelas corporações. Trabalhamos há muitos anos com o conceito de que o exemplo vem do topo e este é encarregado de garantir a perenidade de atitudes de compliance nas organizações. Isto continua sendo verdade, mas hoje temos claro que por mais que você tenha uma liderança engajada na capacitação e na transferência de conhecimento, os seus liderados precisam incorporar estas atitudes não só nas suas tarefas profissionais diárias, mas também na sua vida pessoal, na sua casa, na educação dos seus filhos e nos cuidados com as demais pessoas e principalmente com o planeta.    

De acordo com a Transparência Internacional os índices de corrupção no mundo ainda apresentam um crescente, sendo que 69% dos 176 países que aparecem no ranking mundial da corrupção, possuem pontuações abaixo dos 50 pontos da escala do índice que vai de 0 a 100. Estes dados definem o tamanho do desafio mundial que ainda temos pela frente. O Brasil ocupa atualmente a posição de número 79 e embora tenha descido três posições neste ranking (em 2015 ocupávamos a posição 82) já apresenta sinais de reação e a percepção do ambiente externo quanto aos avanços, ainda tímidos, começa a mudar. É inegável que esses pequenos passos tiveram início em 2013 quando a população ocupou as ruas e passou a exigir respeito, transparência e principalmente sanções aos malfeitos e nesta esteira vieram avanços legislativos e a ruptura com a complacência do passado. Um grande referencial é a Operação Lava Jato. Nos resta agora manter o foco e testemunhar os resultados concretos.

Em recente publicação a KPMG Alemanha (www.kpmg.de) estabeleceu um paralelo intitulado “Entre a Esperança e a Realidade” em que a Alemanha e o Brasil são desafiados quanto à evolução das suas culturas de compliance. A publicação nos mostra que embora as realidades sejam bastante diferentes ainda existem desafios nos dois lados. Ainda na metade da década passada pouquíssimas pessoas na Alemanha conheciam o real significado do termo compliance. No ambiente corporativo, essencialmente instituições financeiras trabalhavam com o conceito, porém este era bastante restrito às tecnicidades econômicas e contábeis. Neste mesmo compasso, o estudo mostra que há dez anos atrás apenas 1% da população brasileira conhecia o termo compliance. Hoje, as percepções dessas sociedades mudaram significativamente e a Alemanha leva uma grande vantagem se comparada com a ainda precoce sensibilidade comportamental brasileira. Entre os desafios do setor privado comum aos dois países é que a maioria das pequenas e médias empresas (PMEs) que compõe 99% das empresas na Alemanha e no Brasil ainda enxergam o compliance como um peso adicional e com benefícios limitados para suas atividades. Isto precisa mudar!

O que é certo e já podemos firmar é que esse ambiente somente será transformado positivamente se a sociedade adotar um padrão de permissibilidade rigorosa, ajustando as suas condutas e aqui o setor privado possui uma importância vital capaz de influenciar positivamente as sociedades em que operam seus negócios.

Os esforços do setor privado podem e devem ser potencializados. Além de várias iniciativas individuais, na sua grande maioria ligadas às grandes corporações multinacionais, cito o Pacto Global da Nações Unidas, como um belíssimo exemplo coletivo no qual o setor privado ao lado das Nações Unidas contribui significativamente neste processo de transformação. A Iniciativa, por meio de suas redes espalhadas em todo o mundo e aqui no Brasil com mais de 800 signatários (empresas, governos e sociedade civil), tem apoiado as empresas na aplicação de seu Décimo Princípio – Combate à Corrupção. Espaços para o aprendizado, para o diálogo construtivo e para trocas de experiências, influenciando pessoas e empresas de diferentes portes e propiciando o entendimento dos riscos e das oportunidades no combate à corrupção, são alguns exemplos das atividades da Iniciativa no Brasil. E em parceria com o UN Global Compact, a Rede local está trabalhando com diversos setores da sociedade a fim de identificar as oportunidades para ações coletivas de combate a corrupção no Brasil e fornecer uma plataforma de aprendizado e diálogo no tema, trazendo stakeholders relevantes para identificar desafios cruciais e modos de solucioná-los de forma coletiva.

Também merece destaque a Alliance for Integrity uma iniciativa de múltiplas partes interessadas lideradas pela Confederação das Indústrias Alemãs (BDI), pela Confederação Alemã das Câmaras de Comércio e Indústria (DIHK) e pelo Ministério Federal da Cooperação Econômica e Desenvolvimento (BMZ) alemão, mas com forte apoio de tantos outros representantes do setor privado, da sociedade civil, como a Transparência Internacional Alemã e organizações internacionais como o United Nations Office on Drugs and Crime. A iniciativa foca na promoção e na integridade no sistema econômico de países como: Alemanha, Brasil, Índia, Indonésia e Gana.

Na BASF, nós enfrentamos este desafio há quase duas décadas e não obstante os grandes avanços conceituais e estruturais que alcançamos nestes anos, ainda aprendemos com humildade a cada novo momento. Praticamos na nossa essência o conceito de que todos contam e que todos são responsáveis pela empresa que somos, pelos profissionais que somos e principalmente pelos indivíduos que somos perante a sociedade. Essa é a nossa inspiração e temos muito orgulho disso!

André Gustavo de Oliveira é diretor Jurídico e Compliance Chief Officer da BASF América do Sul, presidente da Rede Brasil do Pacto Global das Nações Unidas e co-chair do B-20 Grupo Temático Anticorrupção.

Foto: Shutterstock

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